Quando era jovenzinho, havia muitas tribos musicais: roqueiros, pagodeiros, sertanejos, a turma do axé... a música que você ouvia era um marcador de todo um arcabouço moral, comportamental e estético.
Ainda que encontrássemos quem ouvisse de tudo, normalmente as pessoas se identificavam mais com algum estilo musical, que era um definidor de seu lugar (cultural) na sociedade. E também era um definidor de rivalidades: roqueiros não se davam muito bem com os pagodeiros ou sertanejos, por exemplo. Por outro lado, os roqueiros já tinham um trânsito mais fácil com quem gostava de MPB, reggae ou música pop.
Essa divisão também foi política. Me lembro do embate entre roqueiros e sertanejos em época de eleição nos anos 90. Me surpreendi muito com o posicionamento de roqueiros no acirramento político a partir de meados dos anos 2010, defendendo pautas mais típicas da direita liberal brasileira. Seriam os roqueiros de hoje mais elitistas? Ou será que sempre foram? Melhor: será que sempre fomos?
Durante a adolescência, eu era roqueiro e tinha a certeza que a música que eu gostava era melhor do que as outras. Afinal, era uma música que fazia "pensar", com mais crítica social... Sim, essa é uma visão muito preconceituosa e da qual não me orgulho. Considerando o que vi por aí, rock no Brasil sempre foi música de classe média e alta, algo que ajudava a se distinguir da ralé inculta. Tem gente que discorda, esperneia, cita dois ou três exemplos pra argumentar que estou errado... mas é exceção, meu povo.
Concordo um pouco com o Nelson Rodrigues quando ele se refere à intolerância típica dos jovens... Quando somos mais novos, temos muitas convicções. Talvez dogmas! Se tivermos sorte, amadurecemos e aprendemos a ter mais flexibilidade.
Conforme o tempo foi passando, fui amadurecendo meu gosto musical e acolhendo outros estilos nos meus ouvidos e coração. Durante a faculdade, tive mais contato com o forró. As melodias e mensagens me tocam profundamente... talvez hoje eu seja mais forrozeiro do que roqueiro. Também tem o samba... hoje em dia tenho até umas playlists de axé, sertanejo e pagode.
Quando envelhecemos nos deparamos com novas músicas que estão surgindo e o estranhamento vem. Mas tenho birra do comentário "as músicas de hoje não são boas como as da nossa época". Claro que a gente não gosta das músicas novas... a gente tá velho, brother!
A impressão que eu tenho é que essa divisão rígida das tribos musicais passou. A indústria cultural soube aglutinar elementos musicais e estéticos diferentes. Hoje é muito comum encontrarmos cantores sertanejos que parecem roqueiros e que cantam com o pessoal do trap, por exemplo. Talvez os jovens de hoje tenham algo a ensinar sobre tolerância, afinal.
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