terça-feira, 14 de outubro de 2025

Boys don't cry.

Há algumas décadas o mundo era um pouco diferente. Havia uma ideia muito restrita de como um homem deveria se comportar e, como consequência, da maneira de se educar os meninos. Deveriam ser estimulados a ser racionais e comedidos emocionalmente. Mas só a razão não é suficiente para lidar com o mundo! 

As emoções são inerentes às pessoas e calá-las tem um custo alto. Há alguns campos em que as emoções masculinas são mais aceitas... os campos de futebol, por exemplo. Amor, ódio e tantas outras emoções crescem como a grama sobre a qual os jogadores se enfrentam. Dá para entender porque o futebol é tão importante no universo masculino.

Uma outra forma de lidar com as emoções é a música. Até hoje as músicas me lembram de experiências e pessoas. Algumas músicas têm cheiro, gosto e o "quentinho" no coração. Com a música, acesso momentos e sentimentos significativos. Ela também me ajuda quando o "sangue no zóio" é necessário...

Nem tudo são flores: aprendi muito sobre sentimentos com as músicas, em especial sobre o amor romântico. Claro que não poderia dar certo: para boa parte das músicas, o amor é uma dor. Para outras, um arrebatamento. Com o tempo a gente precisa ressignificar tantos desses equívocos. Felizmente vida é uma ótima professora, ainda que um tanto rigorosa.

Em geral, gosto mais de músicas melancólicas, acho que têm mais a ver com minha personalidade e humor. Sempre achei as músicas alegres meio exageradas, extravagantes, espalhafatosas... Hoje eu entendo que essa percepção é uma coisa muito mais minha do que sobre as músicas "pra cima" e seus fãs. Tá perdoada, Ivetinha!

Os ambientes barulhentos me desorganizam. Muita gente conversando ao mesmo tempo, por exemplo, tira minha tranquilidade. Vou ficando irritado, cansado... Até por isso, gosto de ouvir música nessas situações ou quando preciso me concentrar. Ela se sobrepõe aos ruídos do ambiente e me tranquiliza.

E gosto de ouvir música alta! Isso me permite ouvir os detalhes das músicas, mas também dá uma sensação de imersão. Os graves do baixo e do bumbo batem dentro da nossa caixa torácica; o piano preenche cada espaço vazio do nosso corpo... é uma experiência muito sensorial e emocional. Talvez essa seja a causa ou consequência de eu ser meio surdo. 

Ah! E quando estamos ouvindo alguma música, tendo toda essa experiência emocional e alguém vem e abaixa o volume? Desnecessário? Sim! Desrespeitoso? Também! Corta o clima, né? Não dá para manter a serenidade numa situação dessas. Mas já dizia Mario Quintana que "a arte de viver é simplesmente a arte de conviver". Para evitar maiores problemas, tenho usado mais os fones de ouvido, apesar do risco de ficar ainda mais surdo!

Tenho conhecido muita gente, especialmente mais nova, que simplesmente não escuta música!!! Esse povo ouve podcasts ou coloca o rádio sintonizado em estações em que só tem conversa. Quem sou eu pra julgar? Ninguém! Mas eu julgo mesmo assim! Não dá pra ser feliz sem música, gente. Que ódio!

Bom... nesse vai e vem emocional, só consigo lembrar do Robertão nas curvas da estrada de Santos, tentando lidar com as emoções se colocando em situações de perigo. Acho que lidar com as emoções através da música é um pouquinho mais saudável... mas entendo o Roberto: "são tantas emoções..."

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O ex-futuro rockstar

Quando eu era criança, nos anos 80 e início dos anos 90, ainda não havia internet nas casas. A TV a cabo não chegava em Tremembé, cidadezinha em que eu morava no Vale do Paraíba. Ou talvez não chegasse na minha casa. As músicas infantis eram cantadas pelo Balão Mágico, pelo Palhaço Carequinha, pela Xuxa, pela Mara Maravilha... eu não tinha muito interesse por elas.

Gostava mais do que tocava no rádio de minha irmã, 5 anos mais velha. Ou então as pequenas partes das músicas que tocavam durante as novelas. Ouvia muito pop-rock nacional ou "importado". Por algum motivo, também ouvia muito rock mais antigo.

Me lembro de gostar especialmente das músicas com solos marcantes de guitarra ou saxofone. Gostava do som agudo e rasgado - porém  melódico - dos saxofones em músicas como Careless Whisper (George Michael), Cheia de Charme ( Guilherme Arantes) e de tantas de Men at Work.

Tinha a certeza que seria saxofonista e um grande astro do rock. Até me inventei um nome artístico: Bixbox. A sonoridade me parecia bem gringa e roqueira.

Nunca toquei saxofone e tampouco me tornei um rockstar...

A parte do saxofone tem o lado positivo: quem já conviveu com um saxofonista iniciante, certamente tem memórias auditivas marcantes do período. Minha família não teve que passar por essa experiência. Sobre não ser uma estrela do rock, acho que o mundo seria melhor se o Bixbox tocasse nas rádios por aí... uma grande perda.

Minha contribuição para a música não rolou, mas a música é generosa e me retribuiu muito! Fez e faz parte de minha vida e da minha relação com o mundo, mesmo que hoje ocupe bem menos os meus dias. Nos próximos textos quero falar mais sobre isso.

Eu não sei dançar tão devagar (só pra te acompanhar).

No ano passado assisti ao filme Todas as Canções de Amor e, desde então, me lembro frequentemente dele. O conceito é simples: um casal que e...