quinta-feira, 9 de abril de 2026

Eu não sei dançar tão devagar (só pra te acompanhar).

No ano passado assisti ao filme Todas as Canções de Amor e, desde então, me lembro frequentemente dele.

O conceito é simples: um casal que está começando a vida a dois - Ana e Chico - se muda para um apartamento em São Paulo, mais especificamente no Ed. Eiffel, na Praça da República, onde encontram alguns objetos de antigos moradores, como um aparelho de som três em um e uma fita cassete com a inscrição "Todas as canções de amor". Corta!

Uns vinte anos antes, duas pessoas - Clarice e Daniel - enfrentam uma relação desgastada pelo tempo, morando no mesmo apartamento. Clarice monta uma fita com canções de amor para Daniel (a mesma que Ana e Chico descobrem no futuro). Não está claro se o objetivo do presente de Clarice é se reaproximar de Daniel ou se despedir. Corta!

Já entenderam, né? O filme fica nesse vai e vem temporal, mostrando alternadamente a vida dos antigos e dos novos moradores do apartamento.

Em alguns momentos o filme é tenso, em outros melancólico. A relação de Clarice e Daniel dá muita gastura! Eles se amam, mas parece que já não há muito o que salvar. Por outro lado, Ana parece ficar tão obcecada pela fita e pela história dos antigos moradores - e que ela só pode imaginar - que a relação com Chico também dá umas balançadas...

A seleção feita por Clarice é ótima! Junto com cenas do centrinho de São Paulo e do apartamento (um personagem à parte), constroem muito bem o ambiente do filme. As músicas vão de Não Aprendi Dizer Adeus a Drão com uma naturalidade impressionante, passando por Menino Bonito e Não Sei Dançar.

O filme não é romântico, mas conta duas histórias de amor. A sensação que tive foi ambígua. Tem essa melancolia que une a história dos dois casais... também há momentos de esperança e outros de incômodo.

Acho que o filme me tocou porque gosto de pensar que a minha vida tem trilha sonora. Algumas músicas me lembram pessoas ou momentos que vivi. Fiquei imaginando quais seriam as músicas que colocaria numa fita em diferentes momentos da minha história.

Ah! Eu não vou contar o final do filme, porque vale a pena assistir e ouvir!

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

O sistema é mau, mas minha turma é legal!

Quando era jovenzinho, havia muitas tribos musicais: roqueiros, pagodeiros, sertanejos, a turma do axé... a música que você ouvia era um marcador de todo um arcabouço moral, comportamental e estético.

Ainda que encontrássemos quem ouvisse de tudo, normalmente as pessoas se identificavam mais com algum estilo musical, que era um definidor de seu lugar (cultural) na sociedade. E também era um definidor de rivalidades: roqueiros não se davam muito bem com os pagodeiros ou sertanejos, por exemplo. Por outro lado, os roqueiros já tinham um trânsito mais fácil com quem gostava de MPB, reggae ou música pop.

Essa divisão também foi política. Me lembro do embate entre roqueiros e sertanejos em época de eleição nos anos 90. Me surpreendi muito com o posicionamento de roqueiros no acirramento político a partir de meados dos anos 2010, defendendo pautas mais típicas da direita liberal brasileira. Seriam os roqueiros de hoje mais elitistas? Ou será que sempre foram? Melhor: será que sempre fomos?

Durante a adolescência, eu era roqueiro e tinha a certeza que a música que eu gostava era melhor do que as outras. Afinal, era uma música que fazia "pensar", com mais crítica social... Sim, essa é uma visão muito preconceituosa e da qual não me orgulho. Considerando o que vi por aí, rock no Brasil sempre foi música de classe média e alta, algo que ajudava a se distinguir da ralé inculta. Tem gente que discorda, esperneia, cita dois ou três exemplos pra argumentar que estou errado... mas é exceção, meu povo.

Concordo um pouco com o Nelson Rodrigues quando ele se refere à intolerância típica dos jovens... Quando somos mais novos, temos muitas convicções. Talvez dogmas! Se tivermos sorte, amadurecemos e aprendemos a ter mais flexibilidade. 

Conforme o tempo foi passando, fui amadurecendo meu gosto musical e acolhendo outros estilos nos meus ouvidos e coração. Durante a faculdade, tive mais contato com o forró. As melodias e mensagens me tocam profundamente... talvez hoje eu seja mais forrozeiro do que roqueiro. Também tem o samba... hoje em dia tenho até umas playlists de axé, sertanejo e pagode.

Quando envelhecemos nos deparamos com novas músicas que estão surgindo e o estranhamento vem. Mas tenho birra do comentário "as músicas de hoje não são boas como as da nossa época". Claro que a gente não gosta das músicas novas... a gente tá velho, brother!

A impressão que eu tenho é que essa divisão rígida das tribos musicais passou. A indústria cultural soube aglutinar elementos musicais e estéticos diferentes. Hoje é muito comum encontrarmos cantores sertanejos que parecem roqueiros e que cantam com o pessoal do trap, por exemplo. Talvez os jovens de hoje tenham algo a ensinar sobre tolerância, afinal. 

domingo, 23 de novembro de 2025

Como é bom aprender um instrumento

Quando criança eu queria ser saxofonista, mas não segui por esse caminho. Conforme fui crescendo, uma opção foi se mostrando mais acessível: o violão.

Sempre tem alguém tocando violão por aí. Na igreja, numa roda de amigos, na praça... E em casa havia um violão! Pedi para aprender a tocar esse instrumento e... meus pais decidiram me colocar para estudar violão erudito. 

Fiz uns dois anos das benditas aulas. Eu me perguntava quando que começaria a tocar as músicas que eu gostava... até que pedi para parar, porque o que estava aprendendo não fazia nenhum sentido para mim.

Alguns anos se passaram e veio uma mudança para Uberlândia. Com um pouco mais de maturidade, entendi que queria aprender violão popular. Pedi para fazer aulas e minha mãe me apoiou. A gente se dedica quando faz algo que gosta! Eu tocava todo dia, até não aguentar mais de dor nos dedos. Devagar fui melhorando no acompanhamento e também fui encontrando o meu jeito de cantar. Nada espetacular... só o suficiente para as minhas necessidades.

Numa evolução natural, comecei a estudar guitarra, mesmo sem gostar tanto quanto de tocar violão. Aí tive alguns problemas em casa. Meu pai tinha certeza que se continuasse por esse caminho iria querer tocar em uma banda e, depois, viraria um drogado como qualquer músico (na cabeça dele). Minha mãe, muito perspicaz, condicionou eu ter uma guitarra a continuar me dedicando aos estudos.

Meu pai estava certo em uma coisa: uma andorinha só não faz verão. Não sei como ele via algo negativo em uma imagem tão bonita como uma revoada de andorinhas... A música pode ser algo muito particular, mas coletivamente é transformadora. Para um adolescente tímido, tocar um instrumento é uma forma bem eficaz de se aproximar das outras pessoas. O violão me ajudou muito com isso.

Fiz o 2º Grau na Escola Estadual Messias Pedreiro. Era uma escola grande, de boa qualidade, com muita gente e, consequentemente, muitas tribos. Lá conheci pessoas legais e bons músicos. Tem gente que, mesmo sem contato, admiro até hoje. E sim, participei de algumas bandas com amigos de lá.

Acho que não chegamos a dar um nome para a primeira banda que participei. Éramos Paula e eu nas guitarras, Rafael Medina nos vocais, Itamar na bateria, e sua irmã, Maíra, quebrando um galho no contrabaixo às vezes (ela era um pouquinho mais velha que a gente, então presumo que já tinha outras preocupações ou responsabilidades). Até então, Paula e eu não éramos bons na guitarra, apenas gostávamos muito de tocar e compartilhávamos uma paixão pela Legião Urbana. Itamar era bom, mas na época ainda nem tinha bateria. Rafael estava engatinhando nos vocais. Alguns anos depois, tanto o Itamar como o Rafael participaram de bandas bem legais de Uberlândia.

Pouco tempo depois comecei a tocar na igreja, por convite de um amigo que fiz também no Messias. Além da igreja, também tocávamos "no mundo". Essa passagem merece um texto à parte, mas vale o registrar que foi o período que mais cresci como músico. Havia o compromisso de ensaiar, tocar várias vezes na semana, com várias composições diferentes de banda (apesar de a base se manter ao longo dos anos). Logo de cara, abandonei a guitarra e comecei a tocar contrabaixo. Sobravam guitarristas e, sinceramente, eu não era bom o suficiente. Também tocava violão quando possível ou necessário.

Comecei a faculdade e, tirando o compromisso de tocar na igreja, fui tocando cada vez menos. A minha saída da igreja não foi tranquila e perdi muito da vontade de tocar com outras pessoas. Havia outros interesses, outras preocupações e um caminho para seguir.

Tocar um instrumento foi muito importante na minha adolescência e juventude. Aos trancos e barrancos, sigo tocando um pouquinho: quando dá, quando o barulho da criançada ou da televisão não atrapalha, quando eu não atrapalho o estudo ou trabalho da família, ou quando o horário ainda permite - uma dificuldade de se morar em apartamento. 

Falando nisso... vou ali tirar um som!

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Boys don't cry.

Há algumas décadas o mundo era um pouco diferente. Havia uma ideia muito restrita de como um homem deveria se comportar e, como consequência, da maneira de se educar os meninos. Deveriam ser estimulados a ser racionais e comedidos emocionalmente. Mas só a razão não é suficiente para lidar com o mundo! 

As emoções são inerentes às pessoas e calá-las tem um custo alto. Há alguns campos em que as emoções masculinas são mais aceitas... os campos de futebol, por exemplo. Amor, ódio e tantas outras emoções crescem como a grama sobre a qual os jogadores se enfrentam. Dá para entender porque o futebol é tão importante no universo masculino.

Uma outra forma de lidar com as emoções é a música. Até hoje as músicas me lembram de experiências e pessoas. Algumas músicas têm cheiro, gosto e o "quentinho" no coração. Com a música, acesso momentos e sentimentos significativos. Ela também me ajuda quando o "sangue no zóio" é necessário...

Nem tudo são flores: aprendi muito sobre sentimentos com as músicas, em especial sobre o amor romântico. Claro que não poderia dar certo: para boa parte das músicas, o amor é uma dor. Para outras, um arrebatamento. Com o tempo a gente precisa ressignificar tantos desses equívocos. Felizmente vida é uma ótima professora, ainda que um tanto rigorosa.

Em geral, gosto mais de músicas melancólicas, acho que têm mais a ver com minha personalidade e humor. Sempre achei as músicas alegres meio exageradas, extravagantes, espalhafatosas... Hoje eu entendo que essa percepção é uma coisa muito mais minha do que sobre as músicas "pra cima" e seus fãs. Tá perdoada, Ivetinha!

Os ambientes barulhentos me desorganizam. Muita gente conversando ao mesmo tempo, por exemplo, tira minha tranquilidade. Vou ficando irritado, cansado... Até por isso, gosto de ouvir música nessas situações ou quando preciso me concentrar. Ela se sobrepõe aos ruídos do ambiente e me tranquiliza.

E gosto de ouvir música alta! Isso me permite ouvir os detalhes das músicas, mas também dá uma sensação de imersão. Os graves do baixo e do bumbo batem dentro da nossa caixa torácica; o piano preenche cada espaço vazio do nosso corpo... é uma experiência muito sensorial e emocional. Talvez essa seja a causa ou consequência de eu ser meio surdo. 

Ah! E quando estamos ouvindo alguma música, tendo toda essa experiência emocional e alguém vem e abaixa o volume? Desnecessário? Sim! Desrespeitoso? Também! Corta o clima, né? Não dá para manter a serenidade numa situação dessas. Mas já dizia Mario Quintana que "a arte de viver é simplesmente a arte de conviver". Para evitar maiores problemas, tenho usado mais os fones de ouvido, apesar do risco de ficar ainda mais surdo!

Tenho conhecido muita gente, especialmente mais nova, que simplesmente não escuta música!!! Esse povo ouve podcasts ou coloca o rádio sintonizado em estações em que só tem conversa. Quem sou eu pra julgar? Ninguém! Mas eu julgo mesmo assim! Não dá pra ser feliz sem música, gente. Que ódio!

Bom... nesse vai e vem emocional, só consigo lembrar do Robertão nas curvas da estrada de Santos, tentando lidar com as emoções se colocando em situações de perigo. Acho que lidar com as emoções através da música é um pouquinho mais saudável... mas entendo o Roberto: "são tantas emoções..."

terça-feira, 7 de outubro de 2025

O ex-futuro rockstar

Quando eu era criança, nos anos 80 e início dos anos 90, ainda não havia internet nas casas. A TV a cabo não chegava em Tremembé, cidadezinha em que eu morava no Vale do Paraíba. Ou talvez não chegasse na minha casa. As músicas infantis eram cantadas pelo Balão Mágico, pelo Palhaço Carequinha, pela Xuxa, pela Mara Maravilha... eu não tinha muito interesse por elas.

Gostava mais do que tocava no rádio de minha irmã, 5 anos mais velha. Ou então as pequenas partes das músicas que tocavam durante as novelas. Ouvia muito pop-rock nacional ou "importado". Por algum motivo, também ouvia muito rock mais antigo.

Me lembro de gostar especialmente das músicas com solos marcantes de guitarra ou saxofone. Gostava do som agudo e rasgado - porém  melódico - dos saxofones em músicas como Careless Whisper (George Michael), Cheia de Charme ( Guilherme Arantes) e de tantas de Men at Work.

Tinha a certeza que seria saxofonista e um grande astro do rock. Até me inventei um nome artístico: Bixbox. A sonoridade me parecia bem gringa e roqueira.

Nunca toquei saxofone e tampouco me tornei um rockstar...

A parte do saxofone tem o lado positivo: quem já conviveu com um saxofonista iniciante, certamente tem memórias auditivas marcantes do período. Minha família não teve que passar por essa experiência. Sobre não ser uma estrela do rock, acho que o mundo seria melhor se o Bixbox tocasse nas rádios por aí... uma grande perda.

Minha contribuição para a música não rolou, mas a música é generosa e me retribuiu muito! Fez e faz parte de minha vida e da minha relação com o mundo, mesmo que hoje ocupe bem menos os meus dias. Nos próximos textos quero falar mais sobre isso.

Eu não sei dançar tão devagar (só pra te acompanhar).

No ano passado assisti ao filme Todas as Canções de Amor e, desde então, me lembro frequentemente dele. O conceito é simples: um casal que e...